SINOPSE


“Um filme sem camâra” é um retrato da “geração à rasca” uma geração de portugueses entre 25 e 40 anos, que escolheram caminhos que fogem à dita “normalidade”. Que decidiram construir a sua vida criando as suas próprias regras. Sara tem uma profissão artística, mas podia não ter. É uma mulher de 30 anos que vive sozinha com um filho pequeno e não quer desistir dos seus sonhos, nem conformar-se, tem uma fome de viver e experimentar insaciáveis, e luta para sobreviver nesta Europa precária do início do século XXI.
































UM FILME SEM CÂMARA | A FILM WITHOUT CAMERA

HISTORIA


Sara é uma realizadora de cinema de trinta anos, com dois filmes feitos, que foram a festivais internacionais, que tiveram sucesso relativo, mas há três anos que não consegue arranjar dinheiro para filmar. Tem um filho de três anos que ama acima de tudo. Vive sozinha. Tem uma relação conflituosa com o pai do filho, Francisco, um músico, de quem se separou há mais de um ano. Está farta que o produtor, as fundações, todos os sítios onde tenta encontrar apoios para filmar, lhe falem sempre da crise. Sara tem necessidade de subsistir, de sustentar o filho. De trabalhar. De filmar.

Sara sente que só há um caminho para escapar à morte: criar. Filmar é para ela uma necessidade vital, mas também política, social e, principalmente, existencial.

Tem uma melhor amiga, Graça, que é artista plástica, e que descobre que dentro de pouco tempo irá cegar. A ideia da cegueira desespera Sara. Sente-se paralisada.

Graça foi convidada para expor num Centro de Arte Moderna, e pede a Sara para fazer um vídeo da instalação principal para a exposição. Como, quando for a inauguração da exposição, Graça vai estar cega, quer que Sara seja os olhos dela.

Está tudo em colapso à volta dela. Sara põe tudo em causa.

Sara começa a filmar a amiga, como se ao filmá-la a salvasse da cegueira, da escuridão.

Um dia Sara conhece António, um actor e encenador lisboeta de trinta e dois anos que adora Andy Warhol. António propõe-lhe fazerem filmes pornográficos. É pela subversão, pelo gozo, pela perversidade que ela aceita. São baratos, só precisam de uma câmara e deles mesmos como actores. Decidem, conscientemente, analisar quais são os seus limites e tentar ultrapassá-los. Ela está convencida que a grande questão do futuro não são os limites sexuais, mas a identidade e as questões que esta levanta. Quer subverter as identidades sexuais nos filmes. Ao arriscar, Sara abre a caixa de Pandora.

Entretanto, chega André, um amigo de juventude de Sara que esteve seis anos em Berlim, e que vai viver para casa dela até arranjar poiso. Organiza um FilmeClube, que exibe filmes alternativos ao circuito comercial em espaços que nunca se usam para projectar cinema. Uma espécie de “terrorismo artístico”. Decidem inaugurá-lo com a  estreia do filme pornográfico.

Para fazer o filme pornográfico, para tentar perceber o que dentro dela não consegue explicar, Sara decide fazer entrevistas filmadas às suas vizinhas prostitutas. Conhece Susy, há uma empatia imediata entre elas. Ficam amigas. Sara começa a montar o material das entrevistas a Susy, e decide fazer um documentário.

Sara vive como filma, com a voracidade dos seus 30 anos. A vida queima.

Luta para sobreviver, e ao ver que os caminhos que inicialmente sonhou são impossíveis, luta contra essa impossibilidade criando. Sara acredita que podem-nos tirar tudo, menos o sonho, o ponto de vista, o olhar próprio, o impulso que nos faz sair de nós e criar.  “A luta por uma vida melhor só se ganha fazendo, fazendo e mostrando aos outros.” Sara filma sem meios, pondo em causa os seus princípios estéticos, artísticos. Destruindo alguns deles e procurando desesperada novos caminhos que ela não sabe onde vão dar. Como na vida. “Em arte só há uma opção: a que existe. Glauber Rocha.














ACTORES


Sara de Castro

Paula Marques

Gustavo Vicente

Miguel Moreira

André Soares

Ana Brandão

Almeno Gonçalves Susana Vidal

Sofia Marques

Ivo Ferreira

Ana Moreira

Dinis Nogueira Freire

Margarida Almeida

Nicola Brites

Romeu Costa

Pedro Cal

Vasco Freire

Rui Amália

Sminova

EQUIPA


escrito, realizado e produzido

por Raquel Freire


imagem

Tomás Rezende


som

Edgar Medina,

Vasco Pimentel


assistência de realização

Edgar Medina


script

Sérgio Brás d’Almeida


decoração

Raquel Castro


montagem

Helena Alves,

Cedric Zoen, Siegfried,

Valérie Mitteaux


mùsica

Ana Brandão | Carlos Bica

Space Cowboys

“Vida queima” é uma auto-produção.

Foi filmado e montado mas precisa

do seu apoio para finalização.

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CARTA DA REALIZADORA


“É provável que coisas improváveis aconteçam”    

                                       Aristóteles.


1ª parte

Eu sou uma realizadora de cinema portuguesa, sou uma filha da revolução dos cravos e da democracia.  A crise política e económica que atravessamos fez com que o meu país ficasse refém de políticas de austeridade para as quais a cultura é um luxo. No meu país, com intervenção da troika (FMI, bce, UE) acabaram com o Ministério da Cultura e o ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual) paralisou com       os cortes orçamentais.Se um povo deixa de criar as suas imagens, a sua cultura e sua arte deixam de se ver, desaparecem do conjunto das imagens globais.

 

E se deixam de existir estão condenadas à morte. E o que é um povo sem cultura e sem arte, um povo sem identidade? Um povo escravo. “Nenhuma arte dá tanto a medida da cultura e da liberdade como o cinema” (Walter Silveira).

No meio da crise e da depressão que tomou conta do meu país e da Europa eu senti que tinha que agir. Mas vi-me na impossibilidade de trabalhar.

Para mim, não filmar não é uma opção. Ser realizadora é uma necessidade vital, mas também política, social e, principalmente, existencial. Filmo, logo existo. Podem-nos tirar tudo: a liberdade, a vida, o conforto, tudo menos o sonho, o ponto de vista, o olhar próprio, o impulso que nos faz sair de nós e criar - o meu impulso é filmar.

2ª parte

Para FILMAR tive que optar por técnicas radicais de sobrevivência.

Tentei obter financiamento para filmar. Não encontrei quaisquer apoios. Confrontei-me diariamente com a impossibilidade de continuar a fazer filmes. Foi desta impossibilidade que fiz “Vida Queima”: decidi filmar a minha própria impossibilidade de filmar, através duma docuficção, ou seja, introduzindo elementos de ficção num quotidiano que era o meu e o dos meus amigos, filhos que somos dum sonho de Europa de progresso social que as gerações antes de nós construíram e que nos é agora negado. É esta geração sacrificada de jeunes diplome precaire que eu desafio para fazer este filme, sob a forma misturada de ficção e documentário: filmo-os e filmo-me (sob a forma duma actriz que me representa) durante 2 meses.

No início chamava-se “filme sem câmara” porque eu não tinha câmara.

Depois de várias tentativas consegui através duma fundação dinheiro para comprar material para filmar ao propor-me fazer exactamente um retrato das pessoas que deste grupo eram encenadores de teatro - cena que vemos no filme. A montagem desse documentário no estúdio onde eu estava a montar, vemo-la também em “Vida Queima” sob a forma de montagem do próprio filme que estamos a ver, no final.

No início deste filme, vemos Sara a escrever uma cena dum filme e ao mesmo tempo que escreve, a realidade ultrapassa-a e ela está nesse limbo entre a realidade e a ficção. É essa a história da origem deste filme.

O velho cinema em ruínas que vemos no filme é o cinema da minha infância, do “Porto da minha infância” (diferente do de Manoel de Oliveira). Eu ia todos os Sábados às sessões do cineclube onde me inscrevi quando tinha 5 anos e como fui obrigada a ir para o Porto ao passar diante do cinema vejo que o estão a destruir para o transformar num shopping. Decido entrar clandestinamente  com a actriz que me representa e a equipa (éramos 3) e filmamos imediatamente. Como ela teve que sair porque protagonizava uma espectáculo no teatro em frente, eu fiz nessa cena a docuficção completa: vesti a roupa dela ( que era o a minha) e continuamos a filmar. metade da cena é ela, metade sou eu, que comecei em 1999 a filmar em película, fiz 1 curta e 2 longas metragens e me confronto com a impossibilidade de o continuar a fazer.

Eu trabalhei durante 9 anos com um dos maiores produtores independentes europeus, um velho pirata do cinema de autor, que também ele afectado pela crise se tornou alguém com quem foi impossível continuar a colaborar. Esse processo está retratado no filme.

A mercearia onde Sara vai comprar para pagar o pão, o leite, a fruta, a os legumes e depois não tem dinheiro para pagar é o mini-mercado onde eu me via confrontada com a minha precariedade quando ia comprar comida e a dona da loja faz dela mesma: verifica se eu não levei uma migalha a mais do que aquilo que eu conseguia pagar.

A lista é interminável.

Não há cena neste filme que não seja puro docu-ficção.

Raquel Freire